Londres e o desespero

26
Mar
2009

Ora bem, ontem fui a Londres. Ontem foi também a primeira vez que me senti completamente desesperada na minha bonita experiencia em terras de sua Majestade.

Tinha tudo para correr bem, ja tinha carregado as pilhas da maquina, ja tinha algum dinheiro comigo, e até ja tinha pensado na roupa que ia vestir. Seria só apanhar o comboio das 8.17, chegar a Portsmouth as 8.50, esperar pelos meus coleguinhas, comprar o bilhete e embarcar para London Waterloo.

Acordei as 7 da manhã, tomar banho, pequeno-almoço, vestir, arranjar as coisas, ainda tive tempo de ir ao email e de sair muito descansada de casa. Chego a estação por volta das 8.10 e por descargo de consciência carrego no altifalante que diz o próximo comboio. Ora o meu coração fica muito pequenino quando o altifalante me diz que o próximo comboio é só às 9.17. Pensei que talvez fosse o altifalante o errado e resolvi ir ao horário, coisa que não tinha feito no dia anterior. O comboio era às 8.07, e não às 8.17 como são os outros todos durante o resto do dia…

Corro para casa e telefono ao John e perguntar se há outra forma de ir para Portsmouth. Táxi para Portsmouth era caríssimo e ele não fazia ideia dos horários dos autocarros, sugeriu que fosse para Havant, uma estação entre Portsmouth e a minha, que é Bosham. Lista telefónica, procura numero de táxi, não me entendo com a lista telefónica, marco o 118. Dão-me o número dos táxis cá da terra, os táxis cá da terra não têm nenhum táxi disponível – o Pânico. O John liga outra vez a dizer que eu podia apanhar um autocarro para Havant mesmo aqui em frente a casa. Liguei ao Adam para ele tentar comprar o meu bilhete, mas liguei de casa porque não tinha dinheiro no telemóvel. Depois de sair de casa já não podia ligar a ninguém.

O autocarro nunca mais chegava, e eu agonizava com a espera, até que descobri uma tabuleta com horários. Autocarro chega, 20 minutos até Havant. Chego a Havant corro que nem desalmada para a estação, entrei com o meu passe convicta que o Adam tivesse o meu bilhete de comboio para Londres e entro no primeiro comboio para Londres que vi. Estou dentro do comboio e vejo um outro comboio na linha ao lado a dizer “London Waterloo”. Olho para a tabuleta do meu – “London Victória” – o completo desespero. Eu estava pela primeira vez a viajar para Londres, sozinha, sem bilhete e sem dinheiro para ligar a ninguem.

Fartei-me de procura o pica, que nunca mais aparecia. O pica apareceu finalmente! Dirigi-me imediatamente a dizer que precisava de ajuda, estava muito desorientada e tinha entrado no comboio errado, o que devia fazer. O pica foi tão fofinho que me disse para mudar em Claptan Junction para um comboio que fosse para London Waterloo e emprestou-me o telemóvel dele para ligar a alguém. Tanto o Adam, o rapaz polaco, e a minha professora, Claire, estavam sem rede… Clapton Junction é a penúltima estação da viagem até London Victoria, uma seca desesperada. Perto da altura de ter mudar procurei o pica outra vez, que já era um rapaz diferente e pedi-lhe novamente ajuda, ele confirmou e disse-me ainda em que plataforma apanha o comboio para London Waterloo.

Sorte das sortes, ninguém me pediu bilhete, coisa que eu não tinha.

Saio em Clapton Junction, entro no coimboio para London Waterloo. Mais uma vez ninguém me pede bilhete. Chego a London Waterloo finalmente! Mas continuo sem dinheiro e como não tenho bilhete não tenho como sair. Tive de falar com a senhora revisora e acho que o meu desespero já transparecia por todos os olhos, porque ela, apesar de manter uma cara feiíssima e antipática, vendeu-me um All day travel, que dava para eu andar o dia todo de metro e autocarro e só custava 5.60£ .

Entretanto a minha mãe liga-me – graças a deus – e peço-lhe para me carregar  telemóvel português. Levanto dinheiro, procuro uns policias e pergunto-lhes a loja de telemóveis mais próxima. Era fora da estação e quando eu pensava que já nada podia ficar pior, começou a chover torrencialmente. Loja de telemóveis, carreguei o telemóvel inglês, porque o carregamento português nunca mais chegava, liguei para a Claire, mas ela não atendia o telefone. Liguei para o Adam  felizmente ele atendeu. Falei com a Claire que me mandou ir para Leicester Square de metro. Entretanto os meus pais ligaram-me os dois, preocupadíssimos, depois de o carregamento português já ter chegado para confirmar que eu me tinha perdido da professora.

Fiz questão de perguntar com ir de metro até Leicester Square, já me tinha enganado vezes que cheguem! Apanho o metro, saio para Convent Garden e o alivio! A minha turma de fotografia aproxima-se! Finalmente fiquei acompanhada.

Agradeço muito ao John, à mamã, ao papá e ao Tissé que me carregou o telemóvel.

Daí em diante o dia foi bastante pacifico. Nunca mais me perdi de ninguém e vi coisas giras, mas não tirei grande fotografias, não estava com vontade mesmo, acho foi do trauma.

O passeio por Londres foi bonito. Fomos a uma rua com varias lojas ligadas ao mundo das artes, que me fez enterrar algum dinheiro, nomeadamente em livros. Para quem não sabe os livros aqui são mais baratos que em Portugal. Tenho a certeza que vou deixar muita gente invejosa com eles, aha ha ha. O almoço foi num restaurante belga, numa cave, em que todos os pratos são confeccionados com cerveja e há umas variedade assustadoramente grande de cervejas para escolher. O espaço era agradável, um bocadinho escuro se calhar, mas as mesas eram corridas, com banquinhos individuais. Os pratos eram muito artísticos, mas bem servidos, as casas de banho eram um espectáculo, mas tinham demasiadas pessoas para eu ficar a tirar fotografias…

À tarde fomos a duas galerias de fotografia, umas fotografias fixes, outras nem tanto, mas devem ser a únicas exposições que eu tenho para pôr no sketchbook.

Para vir embora, a Claire precisava de vir cedo, e eles estavam todos em bando, porque compraram bilhetes de grupo para ficar mais barato, e com bilhetes de grupo, é preciso viajar em grupo… Eu ainda não tinha comprado os livros na livraria e queria muito lá voltar, então o Moono, ou uma coisa do género, um rapaz chinês da minha turma, tinha um bilhete não utilizado e não precisava de ficar com o grupo ficou comigo por Londres.

Ora a busca pela livraria foi engraçada, andamos às voltinhas do sitio onde era, mas nunca acertávamos na rua, e quando finalmente compramos os livros eu quis vir embora, passado pouco tempo, senão chegávamos muito tarde.

Vir dar aqui a Bosham não é propriamente fácil, isto é muito perto do fim do mundo, mas grande parte da viagem foi uma agradável conversa com o Moono, depois tive de mudar de comboio em Farheam, novamente em Havant e finalmente casa! Ai cheguei mesmo estourada.

Ah! Durante a viagem de volta eu e o Moono vimos um arco-íris daqueles gigantes perfeitinhos, foi mesmo bonito! Acho que no final de tudo tive mais sorte que azar.

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Não fiz trabalho nenhum, e continuo super atrasada, portanto vou mas é acabar isto e pôr mãos à obra.

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Inté,

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Inês

2 respostas to “Londres e o desespero”

  1. […] ser “calamitosos” (isto existe?). O primeiro grande momento foi há muito meses atrás, quando eu me enganei no comboio para Londres, o segundo foi quando o meu trabalho de fotografia foi quase literalmente por água abaixo e agora […]

  2. Londreiorquina says:

    1 palavra: UAU

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