arquivo de May, 2009

Tédio

26
May
2009

Odeio que quanto menos faça, menos me apeteça fazer. Os meus dias não têm sido muito produtivos, sinto-me um vegetal parasita consumidora de quizes do facebook. Isto é terrível. Também preciso de uma aulas de Photoshop, que tenho andado às aranhas para pôr umas fotografias como quero. O Photoshop também é uma coisa terrível, como existe há que mexer em todas as fotografias antes de as publicar.

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Aqui tem estado sol e calor. Parece mentira, mas é verdade! E já há ingleses que falam comigo e que me convidam para festas e para sair à noite. Olha agora meus filhos, eu vou p’rá terrinha que lá são mais tenros.  Este tédio solta o meu lado mais brejeiro, não sei bem porquê…

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Para dizer a verdade, não me apetece dizer mais que isto, e só me vêm coisas parvas à cabeça. Em vez de estar para aqui a discorrer um chorrilho de asneiras, deixo-vos a minha mais recente paixão, que é o contrário da minha brejeirice de hoje.

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Inté,

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Inês

A exposição

18
May
2009

A correria matinal. Fiz mal as contas outra vez ontem, então quando acordei tomei um banho de 4 minutos, vesti-me em 5, não consegui desenriçar o cabelo, meti uma banana na mala, agarrei em tudo o que precisava (que estava pronto desde ontem a noite) e corri para a estação. Na estação desesperei, começou a chover torrencialmente, ao ponto de cair saraiva, e eu já não podia voltar atrás para ir buscar o guarda chuva. A minha viagem de comboio foi então passada na expectativa de que chovesse tudo até eu chegar a Portsmouth, mas depois ficasse sol.

Acho que a técnica de visualização ensinada pelo Walter resultou. De facto quando eu cheguei a Portsmouth as nuvens estavam a ir-se embora, e a viagem só tem meia hora. Fui ao Park Building imprimir as últimas coisas que precisava e toca a dar às pernas para o Eldon.

Quando cheguei à galeria já lá estavam montes de gente.  Meti os pindericalhos nas fotografias que faltavam, colei e cortei as últimas, colei a biografia e os cartões de visita na parede, dei um último arranjo ao tecido e finalmente colei as letrinhas, que avisavam as pessoas para mudar a fotografia exposta para aquela que gostassem mais, no chão.

Os ingleses revelaram-se bem fixes afinal, é só preciso conviver mais com eles num ambiente mais descontraído que as aulas e se formos nós a meter conversa eles até respondem bem. Fartei-me de falar com eles todos. Emprestar tesouras, ajudar a colar, ajudar a cortar, dar a vez na mesa, dar e ouvir opiniões… Ouvir queixas acerca da minha professora muito parecidas com as minhas, comentar entre nós que a vamos mandar passear nisto ou naquilo, enfim, todo um ambiente muito saudável entre colegas porreiros. Uma das meninas foi até incrivelmente querida quando eu estava a colar as letrinhas, e como já não tinha nada que fazer perguntou-me se me podia ajudar a acabar de colar.  Conversamos cobre cursos, o meu e o dela, acho que é o tema mais fácil quando falo com outras pessoas cá.

Outra pessoa com quem falei muito foi com o Moono, um rapaz chinês. Foi ele que ficou em Londres comigo para eu comprar os livros, naquela viagem maluca até lá com a turma de fotografia. Também foi ele que me ajudou a maior parte do tempo, além dos polacos Igor e Adam. Fomos almoçar juntos. Tivemos a inevitável conversar de como tudo é muito caro no Reino Unido, de como os comportamentos são super diferentes e se estaríamos a pensar visitar o país um do outro. Ele quer vir a Portugal no próximo verão.

A exposição começou e eu estava um bocado apreensiva. A ideia de pôr as pessoas a mudar a fotografia exposta só é gira se as pessoas realmente mudarem a fotografia. Mas as pessoas aderiram mesmo. De meia em meia hora, pelo menos, estava lá uma fotografia diferente, houve alturas em que sempre que eu olhava para lá estava uma fotografia diferente. Senti-me super satisfeita por ver que realmente resultou.

Um rapaz chinês, Darwin acho eu, veio lá ver a exposição também, foi super querido, até porque foi o único dos estudantes estrangeiros (porque uns são erasmus e outros são estudantes internacionais) que eu conheço que apareceu, mas os exames começam hoje, portanto muitos estavam a estudar ou a acabar trabalhos.

A exposição é boa. Há muitas fotografias espectaculares e sketchbooks que valem mesmo a pena ver. Acho que até teve bastante gente. Foram muitos conhecidos dos ingleses que lá andavam, e professores do Eldon também e alunos que estavam a sair de um exame ou assim. Quase todos os que pararam no meu cantinho mudaram a fotografia.

Eu trouxe um cartão de visita de quase todos, excepto os que não gostava, e tirei fotografias para finalmente mostrar qualquer coisa, basta clicar aqui.

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Saí, fiz o exame de italiano e fui para o comboio. Aí o cansaço era tal que me vi doida para não adormecer. Mas antes disso tive um grande momento de introspecção… Falta-me qualquer coisa. Falta-me uma palmada nas costas de alguém que eu conheça realmente, um implicar com o pormenor qualquer, o ouvir dizer “gosto muito” de alguém de quem eu aprecie realmente a opinião. Os amigos não me fazem falta só nas alturas más. A exposição estava cheia, mas não havia lá ninguém que eu pudesse puxar e a quem pudesse contar a história de cada fotografia, não havia ninguém com quem comentar cumplicemente os trabalhos dos outros, bem ou mal… E principalmente não havia ninguém comigo no comboio para casa. Não havia ninguém com quem continuar a discutir pormenores da exposição, opiniões, quais são as melhores ou piores fotografias, quem vai ter as melhores notas. Por muitas pessoas com quem eu tenha falado, por muitas pessoas que passem pelas minhas fotografias, aquele espaço vai ser sempre meu e sozinho, e quando a exposição acabar esse espaço deixa de existir. E nunca mais ninguém se vai lembrar da exposição mutante e cor de rosa da rapariga portuguesa.

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Agora sabia-me bem um abraço.

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Inté,

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Inês

Um dia de doidos

16
May
2009

Eu nem sei bem por onde começar ou quem insultar primeiro… Mas hoje eu estava amaldiçoada!

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Esta semana tem sido complicada. Complicada é muito vá, mas tem sido preenchida. Tive entrega do jogo na 5ª, do qual já estava farta, já não posso ver aquilo a frente, só de pensar fico com náuseas. Na 3ª começamos a montar a exposição de fotografia na galeria do Eldon Building. O meu espacinho está a ficar catita e muito cor de rosa, mas foi sem querer…

Até nas aulas se vê bem que esta foi a ultima semana, ou na falta delas. A partir de 2ª deixei de ter aulas de fotografia porque so íamos para galeria, quando nos apetecesse, ontem e hoje só tive aulas de inglês, porque o meu professor de C++ não gosta muito de dar aulas a mudos e porque com a entrega do jogo não fazia sentido eu ir mais às aulas de scripting, que iam ser dedicadas a animação.

Tudo isto parece muito folgado e com montes de tempo para o que nos apetecer… Não é bem assim. Aqui a cena de estar às 10 em algum lado já não é nada cedo. Alem disso eu para estar às 10 em Portsmouth tenho de me levantar às 8, o que é muito cedo, então levanto-me só as 9 e chego a Portsmouth às 11.

Foram este tipo de contas que eu fui fazendo durante a semana. Na segunda, como não tinha aulas, só fui para Portsmouth às 5.20, para o exame de italiano das 6 e aproveitei o dia para mexer no jogo. Na 3ª às 10 da manhã estava no Eldon Building para escolher o meu lugar da exposição. Alguns meninos foram mesmo gulosos e ficaram com espaços bem maiores que o meu, mas como eu tenho a exposição mais original de todas nem tem importância. Fui almoçar com a Ariane e com a Doris, fui despachada da aula de Scripting porque acham que sou um génio e que vou ter alto jogo com uma programação mega avançada (para alunos do primeiro ano cof cof) e voltei para casa para amaldiçoar o jogo, comprar uma conta nova no Flickr e engonhar bastante. Faz favor de carregarem lá no link e ir comentar as minhas fotografias bonitinhas. Na 4ª fui só as 2 para Portsmouth, comprei um tecido para tapar a caixa onde vão estar todas as minhas fotografias, colei-as em k-line, cortei e vim embora. À noite estive a dar os últimos retoques no jogo e no relatório, que felizmente era de 4 páginas. 5ª contas novamente mal feitas. De manha fiquei em casa, não me lembro a fazer bem o quê, conclusão cheguei a Portsmouth às 2. Vou entregar o jogo, a entrega é feita em mão a alguém do Office do departmento e ficamos com um comprovativo. Pode parecer muito bom, mas demora como tudo, estive uns 10 minutos na fila. A seguir corri para a Commercial Road para comprar parafusos torcidos para pendurar as fotografias, mandar imprimir a capa do meu Feedback Book e correr para aula de inglês. A aula de inglês acaba às 5, que é quando fecha tudo praticamente. Corri a buscar a fotografia que mandei imprimir e vim para casa. Made in Deca, ou seja, sem fazer nada até às tantas, e mais umas horas a amaldiçoar quem inventou os relógios porque eu queria ir dormir e tinha coisas para fazer e imprimir.

Pronto, despachei-me, arrumei tudo, incluindo o quarto da Kath, que estava todo bodegado por eu ter andado a fazer colagens e a cortar cartolina e com montes de folhas espalhadas pelo chão. Arrumei também as coisas para levar para Portsmouth no dia seguinte: o Sketchbook impresso – mais tarde ponho aqui a versão para Web para sacarem – numa caixinha para não se amassar, as letras que ainda precisava de cortar, a cartolina, cola e o estojo, a bibliografia na pen para ir imprimir ao Park Building porque afinal a impressora deles a cores é de boa qualidade e eu ainda tenho umas quantas impressões grátis, as fotografias para o Feedback Book… Acho que não me faltava nada. Cama.

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Sexta-feira, a derradeira. Ora com tudo arrumado e cronometrado, pareceu-me plausível acordar só às 9, chegar a Portsmouth às 11, ir à biblioteca da Universidade pedir para me encadernarem o Sketchbook e o Feedback Book, dar um saltinho na galeria e ir para a aula do meio-dia à uma.  A partir da uma dedicar-me-ia somente à exposição e provavelmente teria tudo pronto hoje. Bela utopia.
Bem,  acordei com dificuldade, banho, pequeno-almoço e essas tretas, pegar nas coisas que vou levar para Portsmouth e ver se não falta nada. Não faltava, só estava indecisa entre levar a mochila ou a saca de papel, e se levava o computador ou não. Saca de papel, porque já lá tinha as coisas dentro e o computador não ia ser preciso, portanto é menos esse peso, ficou em casa.

Sai de casa e estava a chover, mas aquela chuvinha molha tolos, nada de especial. Comboio, seca, tem de ser. Chegada a Portsmouth, passo muito acelerado para a biblioteca para não perder mais de 10 minutos a lá chegar. A chuvinha de repente ficou um pé de água. Há uma zona mais ou menos a meio do caminho entre a estação e a biblioteca em que o vento é tão forte que cheguei mesmo a fechar o guarda chuva, porque tive medo que ele partisse, mas voltei a abri-lo passados 30 segundos, que eu não ganho para pára-brisas oculares. Entretanto fiquei encharcada, assim como o querido saco de papel com folhinhas e fotografias e convites e o estojo e a cola e letrinhas cortadas e tal… Estava a dois minutos da biblioteca, só mais um bocadinho e já dava para mudar as coisas para a minha carteira e pumba! Saco rebenta, cai tudo ao chão, é o caos! A caixa do Sketchbook abre, as folhas saltam cá para fora, a embalagem das fotografias rasga e elas também se atiram para o chão, o estojo, a cola, os convites, tudo encharcadinho e eu feita parva a segurar um guarda-chuva cor de laranja com números, a olhar para os pés e a perguntar-me a mim mesma porque raio é que não tinha levado a mochila em vez da porra da saca!

Passa o choque, começo a apanhar as coisas freneticamente e a mete-las para dentro da carteira – benditas as carteiras grandes – e um rapaz muito simpático veio ajudar-me, senão o dilúvio tinha sido bem maior. Cartolina, guarda-chuva, caixa do Sketchbook, carteira, tudo nas mão meio empilhado, para chegar o mais depressa possível à biblioteca e verificar estragos. Ora os estragos avaliam-se por uma saca inutilizada, assim como todos os convites para a exposição, uma data de paginas do Sketchbook molhadas e algumas em estado tão débil que rasgavam só de tocar e finalmente umas fotografias coladas e outras manchadas pela água. A cartolina salvou-se.

Fui perguntar ao senhor onde se faziam encadernações, não era ali, era na Student Union – em frente à qual me tinha caído tudo. Pedi humildemente um saco de plástico e passo de corrida para lá. Tanto o Sketchbook como as fotografias estavam molhados demais para encadernar e algumas tinham mesmo de ser impressas de novo. Aí amaldiçoei a minha vida por não ter levado o computador – nunca mais vou sem ele para lado nenhum!

Passo de corrida até ao Eldon Building para deixar lá o peso a mais. Ainda estava tão atarantada que não fiz nada alem de falar com os meus colegas e depois tive de correr para a aula de inglês no Park Building. A aula foi gira vá, mas eu estava com pressa. Entretanto decidi voltar a Bosham – meia hora para lá – pegar no portátil, esperar pelo próximo comboio – esperar 40 minutos – e voltar para Portsmouth, imprimir as páginas estragadas de novo e ir finalmente encadernar.

Saí da aula ainda com tempo de sobra para apanhar o comboio portanto fui pôr o Feedback Book  encadernar e fui ao Eldon explicar ao meu professor o que se estava a passar e porque é provavelmente eu não iria aparecer lá hoje. É que eu saí de Portsmouth às 2 e só consegui voltar às 4. Como o Eldon fecha às 5, pareceu-me um bocado impossível imprimir, encadernar e chegar a tempo de fazer o que quer que fosse. Entretanto lá me atrasei com o prego e o berbequim para pendurar as minhas fotografias e mais uma vez, passo de corrida para a estação com uma mordidela na língua tal que mesmo que eu quisesse insultar alguém não podia, a língua ficou dormente.

O stress no comboio para casa, o gajo dos óculos escuros com metal aos berros, o telemóvel sem bateria para eu ouvir a minha musica e não tem de ouvir a dele distorcida, a minha estação que nunca mais chegava… Chegar a casa, ligar o computador, pôr o pfd na pen. Não cabe, é muito pequena. Pôr no disco – o disco está cheio, toca a eliminar coisas. Pronto, pdf no disco, desligar o computador, engolir um iogurte que afinal era de comer.

Desta vez não facilitei, peguei na mochila, meti as coisas que queria levar comigo lá dentro, meti o que ainda estava bom do Sketchbook num saco de plástico, fechei-o muito bem fechado com fita-cola e ainda o meti dentro da protecção do computador que é anti-chuva. Está claro que levei o computador. Mas ficou sol, por isso não levei guarda-chuva. Correr para a estação e agonizar no comboio.

Portsmouth finalmente, está a chover outra vez. Correr para o Park Building. Felizmente havia um computador vazio. Login, ligar o disco ao pc, abrir o pdf, imprimir… A impressão sai com um tamanho diferente das outras folhas.

“Ora pensa, já fizeste isto antes, saiu com o mesmo tamanho, mas estava em jpeg.”

O Adobe reader tem uma opção para converter em jpeg sim senhor. Não encontrei no computador da Universidade, peguei no meu, ligar, abrir, procurar – AAAAAAAAAAAAAAAIIIII! Encontrei finalmente. Outra seca, esperar que todas as paginas sejam convertidas para jpeg. A minha sorte, no meio deste azar, é que a maior parte das paginas estragadas eram das primeiras, então deu para passar essas para o disco e imprimi-las enquanto esperava desesperadamente que o programa convertesse todas as raios partissimas, já que as ultimas que eu tinha de imprimir eram precisamente as ultimas duas paginas.

Tudo impresso, saí do Park Building às 5 e corri para a loja de encadernações, a apanhar águinha pela cabeça abaixo. Felizmente ainda estava aberta e o senhor simpaticamente encadernou-me o Sketchbook agora revigorado. Pronto, já tinha o Sketchbook e o Feedback Book encadernados e bonitinhos, menos mal. Mas não fiz mais nada o dia todo e isso é mau. Pior ainda, tinha a cartolina e a cola e as letras impressas na galeria do Eldon Building, que fecha às 5. Corri para lá, eram 5.15. Procurei nos escritórios todos alguém que me abrisse a galeria. Uma senhora arranjou simpaticamente a chave, mas não podia abrir a galeria porque senão o alarme disparava. Esperei por um segurança, que nunca mais aparecia. Finalmente apareceu um senhor gordinho anafado e simpático que me abriu a galeria. Tirei a cartolina, as impressões e deixa a porcaria da cola lá dentro!

Já não havia nada a fazer, por isso fui para a estação, com o passo acelerado e a transpirar, mas sempre debaixo de chuva. Apanhei o comboio. O alivio, mais ou menos. Agora tenho de cortar letrinhas, cola-las em cartolina e cortar a cartolinas, sem ter cola em condições para isso. Estou estourada. Mas vá, o dia não acabou mal. Estou orgulhosa do meu Sketchbook, o meu Feedback Book está bonitinho, a minha exposição está por acabar de montar mas vai ser a mais original de todas… Amanhã ainda tenho de imprimir um auto-retrato. A partir de segunda-feira fico sem nada que fazer.

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Uf… Estou cansada só de contar isto.

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Inté,

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Inês

As coisas que ficam sempre iguais

9
May
2009

Bem é muito comum dizer-se que há coisas que nunca mudam. Isto é tão verdade. Eu mudei a alimentação, os horários, a terra, o país e a língua. Mudei de Universidade e troquei as cadeiras que iria ter pelas que tenho agora. Mudei até o método de trabalho, que era de deixar sempre tudo para a última da hora e depois entregar as coisas com um ligeiro atraso, ou com um português ranhoso porque se escreveu à pressa e não havia tempo para estar com picuinhices. Mudei definitivamente a minha percepção sobre as viagens de avião, passaram de uma cena fixe, para uma seca descomunal.

O que não mudei já está muito entranhado. Não perdi a minha mania ou a minha sinceridade e continuo a fazer de conta que sou feia, porca e má. Continuo super mimalha também.

Vê-se tão bem que as minhas aulas estão a chegar ao fim…  A perguiça é gigante, a vontade de sair da cama não é nenhuma e só quero ir para a praia! Em vez de pensar “não posso faltar as aulas”, penso “tenho estas faltas todas para dar”, os trabalhos apesar de adiantados ficam sempre com pormenores por corrigir e  pensar em estudar é algo doloroso. É também muito grande a vontade de ir para casa comer a comida da mamã. E de estar com os amigos, e de voltar para Aveiro.

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Não quero nada que Aveiro acabe. Quero ir a barra. Quero perder horas nas imitações foleiras de rocha do paredão.

Chegar à praia à hora de almoço com um guarda sol de 4 €, porque eu não posso usar protector solar, apanhar uns banhos de sol, molhar só os pés, porque a água é demasiado gelada para mais. Esconder-me nas dunas, longe de gente e de pessoas e bolas de praia e cães e crianças que levantam areia. Ficar a ver o mar, só a olhar, como quem contempla um divindade. Às 5 da tarde já está frio para continuar com o biquíni. É vestir a roupa e fazer umas manobras manhosas para trocar o biquíni por cuecas e soutien sem que ninguém veja que estou despida, vestir um casaco. Ir até à Milano comer um crepe com chocolate derretido e uma bola de gelado. Esperar que todas as pessoas se vão embora enquanto o sol fica cada vez mais baixo. Ir até ao paredão para ver o pôr do sol. Ficar encolhida numa rocha enquanto a luz vai ficando amarela, depois laranja, depois arrocheada e azul claro. Deixar que o azul fica cada vez mais escuro, até se ver as estrelas. O jantar pode ser feito num sitio qualquer, mas rápido, que eu quero voltar para as rochas.

Depois vem a lua com aquela luz azul brilhante que nos faz ver as ondas e as correntes e as rochas e os barcos a entrar ou a sair. O casaco já não chega, mas levam-se os sacos cama. Podíamos ficar aqui até amanhecer. Calados ou a conversar não interessa. Eu só quero ver o mar.

E a Maura. E o Couto. E o Pipes. E o Carlos. E a Ju. E o João. E o Neto. E o Gavina. E o Luís. E a Lou. E a Carolina. E o Pedro Bifásico. E a Mariana. E a Marta. E a Belinha. E o Walter.

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“O mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz, o mar enrola na areia, é porque se sente feliz.”

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Inté,

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Inês

O enterro

2
May
2009

Pensei que a minha espera ia ser menos penosa, uma vez que vi cartazes a dizer “internet grátis”. Mas, como quase toda a internet grátis, não acede a site nenhum, ou então eu sou mesmo ignorante…

Estou no aeroporto do Porto, são 18.50.  Obviamente só poderie publicar isto bem mais tarde que a hora a que estou a escrever, só chego a Londres às 21.40, ou seja, vou chegar a casa, na melhor das hipóteses, às 23.00. O meu voo é só as 19.30. Definitivamente eu não dou para artista, e duvido que dê para emigrante até. Em poucas viagens já estou farta. Farta das esperas de aeroportos, dos limites de bagagem, dos pormenores piquinhas da segurança, de acartar coisas, de andar para cá e para lá… Mas estou principalmente farta de perder tempo. Eu cheguei ao aeroporto às 18, ainda são 18.54 e ainda tenho de esperar até as 19.30… Bendito o comboio. É mais prático, mais confortável e dá-nos secas mais pequenas…
Isto tem umas televisões a dar o jogo Académica-Sporting na SportTv que me está a irritar solenemente, mas há alguns senhores a gostar.

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Não me apetece nada ir embora… Está sol e calor e eu devia era estar na praia a torrar as espinhas que tenho nas costas… Não se assustem que não são assim tão proeminentes que façam as minhas costas parecer a superfície da lua, longe disso, mas ninguém gosta de ter uns defeitosinhos…

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Ai suspiro pelo Enterro. Eu definitivamente devia ter vindo mais cedo… Foi pouco tempo, foram poucas noites, poucas conversas, poucas soluções para os meus problemas com trabalho, com o qual continuo atrasada.

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Vão dar inicio ao embarque, mas eu quero ir fazer chichi… É sempre assim quando tenho de embarcar, a vontade aumenta, nunca percebi porquê. A fila está gigante e particularmente cheia de crianças pequeninas. São montes de bebés e carrinhos e pais com malas enormes.

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Apetece-me ter mais Enterro hoje a noite. Ir jantar com um grupo grande, beber uns copos, ir para o recinto, amaldiçoar a vida de quem me aperta no autocarro, andar a cravar shots a muita gente e ouvir umas musicas de uns concertos entre conversas e palermices de pessoas bêbedas.

Gostei muito das dedicatórias que me escreveram, apesar de ser do contra e não ter ido de lençol. Estou com aquela sensação horrível de que vou perder muita gente. Ainda bem que há blogs, facebooks, hi5, e mais umas data de comunidades às quais eu nunca aderi, mas vou pensar nisso.

Ainda quero ir à praia com muita gente. Ainda quero que se combine mesmo qualquer coisa como uma pseudo-viagem de finalistas ou simplesmente uma churrascada conjunta em casa de alguém. Quero mais surpresas boas de pessoas que não conhecia e passei a gostar, de pessoas que não me conheciam e descobriram que afinal eu era menos intragável do que parecia.

Não me apetece nada embarcar, mas tem que ser… E o que tem que ser tem muita força.

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Um versinho bonito do Rui Veloso que me despertou um sentimento de pertença na 4ª a noite:

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“Muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa.”

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Inté,

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Inês